
A crise vivida pelos produtores de arroz do Rio Grande do Sul, que enfrentam uma combinação de preços abaixo dos custos de produção e dificuldades de crédito para financiar as atividades, deve continuar mostrando efeitos em 2026. Representantes do setor orizícola gaúcho esperam que, no primeiro semestre do ano, deva ocorrer uma concentração de vendas do cereal, depreciando ainda mais as cotações.
Na última semana de janeiro, segundo o indicador Cepea/Irga-RS, o preço do arroz em casca no Rio Grande do Sul apresentou uma cotação média de R$ 53,84 a saca de quilos. Já o custo de produção, durante a implantação da lavoura, girava em torno de R$ 70 a R$ 75 a saca.
“Vivemos o momento mais delicado da história da agropecuária gaúcha, especialmente para o arroz”, afirmou o presidente da Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul), Domingos Velho Lopes. “Fatores climáticos, questões de mercado, problemas de crédito e endividamento, além da geopolítica mundial gerando indefinições de taxas e de acordos comerciais, estão prejudicando de forma consistente nossas cadeias agropecuárias”, destacou.
“A colheita global de arroz de 2024/25 foi uma das maiores da história, e tivemos a Índia entrando fortemente no mercado, derrubando os preços internacionais. Somando com a supersafra brasileira, crédito difícil ao produtor e juros, sofremos uma conjuntura muito negativa no ano passado, e que está se arrastando para 2026”, explicou o presidente da Federação das Associações de Arrozeiros do Rio Grande do Sul (Federarroz), Denis Dias Nunes.
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Durante reunião de entidades ligadas ao setor, realizada na sede da Farsul, em Porto Alegre, foram apresentadas algumas ações que os produtores consideram essenciais para ajudar mitigar a crise do arroz em 2026. Algumas já foram executadas, como a recomendação de redução de área plantada.
Segundo o presidente do Instituto Rio Grandense do Arroz (Irga), Alexandre Azevedo Velho, as lavouras gaúchas de arroz devem ocupar entre 880 mil e 890 mil hectares nesta safra, uma queda entre 9,3% e 8,2% em relação aos 970 mil hectares plantados na temporada 2024/25. Os números oficiais só devem ser divulgados na próxima semana, mas Velho também espera uma redução de produtividade.
“Temos relatos de infestações de pragas, como o arroz vermelho, em todas as regiões produtoras. O produtor usou menos tecnologia nas plantações do que na última temporada, tendo em vista os problemas de acesso ao crédito, endividamento e altos juros de financiamentos”, explicou.
Entre as ações consideradas para ajudar a crise econômica dos arrozeiros está uma proposta, junto às indústrias, revendas e multinacionais, a fim de desconcentrar os vencimentos de Cédulas de Produtor Rural (CPRs) e instrumentos relacionados, que hoje se acumulam em 30 de março e 30 de abril.
Segundo Antônio da Luz, economista da Farsul, quando o vencimento está concentrado, parte relevante dos produtores é empurrada para uma venda simultânea da colheita, devido à necessidade de liquidez. Esse movimento gera uma superoferta no mercado, pressionado cotações e tornando o processo de recuperação de preços mais lento e custoso.
A proposta das entidades é viabilizar aditivos, promovendo liquidação parcial das CPR no dia 30 dos meses de março, abril, maio e junho, reduzindo o choque de oferta e permitindo uma comercialização mais ordenada. “As entidades representativas, como a Andav (associação dos distribuidores de insumos) receberam bem essa ideia. Mas, junto às empresas, não está sendo uma negociação fácil, pois envolve mudanças de taxas. Operacionalizar isso não será simples”, destacou Luz.
Outra ideia apresentada é a redução de ICMS para o arroz no Estado do Rio Grande do Sul durante o período de colheita. A proposta já foi entregue ao governador Eduardo Leite, e as entidades esperam uma resposta para a próxima semana.
No entanto, para as entidades, uma solução definitiva para os problemas de mercado do arroz gaúcho só deve ocorrer quando for viabilizado o uso do cereal para a produção de biocombustível. “Isso seria a redenção para o setor”, afirma Lopes, da Farsul.
Segundo o presidente da Federarroz, o setor está conversando com empresas de bionergia e enviando amostras de arroz para analisar a capacidade de geração de etanol a partir do grão. “Também estamos discutindo com a Embrapa Agroenergia para que possamos trabalhar esse uso do arroz na produção de combustível”, afirmou Nunes.
O dirigente ressalta que essa destinação do cereal para etanol não iria reduzir a produção para alimentação humana. “Temos área para expandir a cultura caso isso ocorra”, destaca.
Confira a lista de ações propostas para mitigar a crise do arroz no RS
Recomendação de redução de área plantada;
Busca de mecanismos de comercialização;
Uso da Taxa de Cooperação e Defesa da Orizicultura (CDO), paga ao Irga, para estimular exportações;
Proposta de redução do ICMS do arroz no RS durante o período de maior comercialização;
Desconcentração dos vencimentos de CPRs;
Alongamento de custeios junto às instituições financeiras;
Pesquisa, divulgação e medidas contra a venda de arroz fora de tipo especificado na embalagem





