
“A situação não é boa”, lamenta o produtor Fabrício Cecchetto, de São Borja (RS), na fronteira com a Argentina. Na semana passada, o estresse hídrico começou a se manifestar nos 445 hectares de soja de sequeiro do agricultor. “Onde a terra é mais rasa, as plantas já estão amarelando, desfolhando e querendo morrer”, afirmou. A única área em que a situação está sob controle são os 45 hectares que contam com irrigação, onde Cecchetto plantou a segunda safra da oleaginosa após a colheita do milho.
Segundo ele, para evitar perdas graves na safra, seria necessário chover entre 30 e 40 milímetros até o fim desta semana, no máximo. “Depois disso, precisaríamos também de precipitações mais regulares. Senão, a situação tende a se agravar, e vamos ter morte de plantas e redução de produtividade”, afirma o produtor.
Para o agrometeorologista Marco Antônio dos Santos, da Rural Clima, será “mais um ano complicado para o produtor” do Estado, mas ele diz ainda ser difícil estimar os prejuízos. Alguns produtores já relatam perdas de mais de 50%, mas outros acreditam que, se voltar a chover nos próximos dias, as perdas serão mínimas. “Fato é que a produção do Rio Grande do Sul não será mais tão grande quanto se estimou em dezembro”, avalia.
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Em Hulha Negra, no sul do Estado, o produtor Eduardo Ternes Ebert também já está encontrando plantas com folhas amareladas ou murchas em sua plantação de soja, de 230 hectares. “Quando implantamos as lavouras, as chuvas foram regulares, mas agora estão esparsas e com pouco volume de precipitação”, afirma. Partes da lavoura de Ebert estão nas fases de florescimento e enchimento de grãos, justamente as mais críticas para a cultura, em que a exigência de água é maior.
Mas as previsões não são muito otimistas. Segundo a ferramenta da Field Pro disponível no site da “Globo Rural”, os municípios de São Borja e Hulha Negra não devem receber mais do que 1,5 milímetro de chuva até o fim desta semana. Só no dia 14 de fevereiro deve chover perto de 30 milímetros, como esperam os agricultores entrevistados.
Além da falta de chuvas, outra preocupação recente é a chegada de uma onda de calor ao Estado. Santos, da Rural Clima, acredita que as temperaturas só vão cair no sábado (7/2), no mesmo dia em que, segundo os modelos meteorológicos europeu e americano, as chuvas devem retornar a algumas áreas do Rio Grande do Sul.
Produtor de soja sofre com falta de chuvas no RS: “Onde a terra é mais rasa, as plantas já estão amarelando, desfolhando e querendo morrer”
Fabrício Cecchetto/Arquivo pessoal
Porém, Santos é pragmático, e lembra que a chuva pontual não será suficiente para resolver a falta de água para os sojicultores. Logo no início da próxima semana, o tempo deve abrir novamente.
Ronaldo Coutinho, engenheiro agrônomo da consultoria Climaterra, diz que, apesar de essa não ser uma estiagem severa, o fato de as lavouras estarem em fases críticas, de florescimento ou enchimento de grãos torna a falta de água especialmente problemática. “Haverá perdas, sim”, afirma. “Uma lavoura que produziria 100 sacas por hectares pode produzir entre 40 e 60 sacas por hectare, por exemplo”.
Coutinho acredita que a chuva do fim de semana deverá minimizar os prejuízos, mas lembra que, no verão, ocorrem chuvas mais irregulares, que não abrangem áreas tão extensas. “É normal chover em uma área e, em outra próxima, não. Essas falhas vão acontecer; resta torcer para que chova nos lugares certos”, finaliza.
Também há problemas na região noroeste do Rio Grande do Sul, onde as lavouras de soja estão em fase mais adiantada, informa a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado (Emater-RS). Na semana passada, a falta de umidade no solo, associada às altas temperaturas, causou queda prematura de folhas em algumas lavouras, especialmente as localizadas em solos com menos reserva de água.
Segundo a Emater-RS, na região noroeste, as lavouras de soja que foram semeadas mais recentemente, quando já havia calor intenso, estão com germinação irregular e baixa densidade populacional. Houve casos em que foi necessário fazer o replantio em algumas áreas.






