
O preço das áreas agrícolas para arrendamento caiu no Brasil no semestre de 2025, reflexo da queda das cotações das commodities e das margens apertadas dos produtores, o que diminui o ímpeto por novos arrendamentos. Já os valores das terras para eventual comercialização tiveram um pequeno avanço no último trimestre do ano passado. Contudo, segundo especialistas, a tendência para 2026 é de liquidez ainda baixa, tanto no mercado de terras quanto no de arrendamentos.
Levantamento da S&P Global Commodity Insights mostra que o preço médio do arrendamento rural foi de R$ 1.931 por hectare no segundo semestre de 2025, valor 2,5% menor que o de igual período de 2024. Notícia ruim para os proprietários que arrendam suas terras, já que também terão a rentabilidade afetada.
“Estamos em um momento de enfraquecimento dos preços globais de soja e milho, em função de ofertas elevadas. Com isso, caso os preços se mantenham acomodados, com a ausência de um forte catalisador de alta, os preços do arrendamento também devem se manter arrefecidos”, diz Leydiane Brito, analista da S&P Global.
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Na análise do último semestre, entre as regiões do país, a exceção foi o Sudeste, onde os preços do arrendamento subiram 4,3%, puxados pelo café e pelas pastagens. Essas áreas de pasto comumente são arrendadas para conversão para agricultura ou integração do gado com agricultura.
No Sul, onde o hectare arrendado é o segundo mais caro do país, atrás apenas do Sudeste, o preço médio do arrendamento ficou em R$ 2.342 por hectare no último semestre, recuo de 9,9%.
A queda atual no preço dos arrendamentos não beneficia os produtores que alugaram terras a valores mais altos, num momento de mercado mais favorável para os grãos, cujas cotações geralmente são usadas como referência. Além dos custos mais altos, eles enfrentam um cenário de pressão sobre as commodities, o que significa margens apertadas ou até negativas.
“Se você pagar os arrendamentos que estão correndo aqui na região, em torno de 15 a 18 sacos por hectare, a margem da soja é zero. Hoje não dá resultado arrendar para soja”, queixa-se o diretor-executivo da GMS, Moacir Smaniotto Júnior, produtora de grãos em Mato Grosso.
O produtor Carlos Wagner Messerlian La Bella devolveu ao proprietário os 400 hectares que arrendava para plantio de grãos e pecuária em Lavras do Sul (RS). “Ficou totalmente inviável”, diz.
Também com perspectivas pouco alvissareiras neste ano, o mercado de terras registrou leve alta no último trimestre de 2025, segundo a S&P. O levantamento da empresa mostra que o preço médio das áreas agrícolas no Brasil ficou em R$ 27.412 por hectare no último trimestre de 2025, alta de 1,63% em relação a igual período do ano anterior. No caso das áreas de grãos, o avanço foi de 0,89%, para R$ 56.323 por hectare.
“A possibilidade de manter preços com variações moderadas é provável devido à baixa liquidez que o mercado enfrenta há algum tempo. O contexto global é de aumento de estoques de grãos e preços de soja e milho no Brasil mais acomodados, caso não tenhamos um fator de suporte, como quebras produtivas ou retração de área”, estima Leydiane Brito.
Segundo a analista, os juros altos, as margens pressionadas e as restrições de crédito dificultam a concretização de negócios em maior escala. Com poucos negócios, os preços também tendem a continuar estáveis.
Do ponto de vista dos investidores, que podem ter acesso a oportunidades atrativas neste momento, estão no radar regiões com potencial de valorização. “A possibilidade de converter áreas de pastagem degradadas em áreas de lavouras tem sido vista como umas das principais opções de investimento a longo prazo, pelo elevado ganho de capital com a venda do ativo no futuro”, afirma Brito.
Na ponta vendedora, o endividamento elevado tem feito com que produtores optem por se desfazer de parte de suas terras em busca de capital e sejam mais flexíveis nas negociações. “Estamos vendo o produtor aceitar preço mais baixo na negociação. Quem não se planejou, não fez o pé de meia, está colocando a terra à venda”, afirma Mario Lewandowski, diretor de novos negócios da gestora AGBI.
Ele lembra que os custos com insumos ficaram mais caros desde o início da guerra na Ucrânia, e, na sequência, o preço da soja passou a cair em relação ao pico de 2020. No ano passado, em especial, o crédito ficou cada vez mais restrito, aumentando a inadimplência.
Daniel Meireles, diretor da Acres, braço do Grupo Safras & Cifras que trabalha com estruturação de negócios de ativos rurais, destaca que o cenário é mais crítico no Rio Grande do Sul, onde o mercado de terras entrou em um ciclo defensivo ou de contração, diante do alto nível de endividamento dos produtores rurais afetados por extremos climáticos.
“Estamos vivenciando um ‘freio de arrumação’ no mercado: espera-se uma redução de área plantada e de uso de tecnologia nos próximos ciclos, como forma de ajustar contas e evitar colapsos financeiros”, afirma Meireles.
* O jornalista Daniel Azevedo Duarte viajou a convite da Basf






