Mesmo com boa produtividade nas lavouras de soja, a conta do produtor rural está cada vez mais apertada — e, muitas vezes, fica no vermelho quando entra no cálculo o custo do arrendamento. O preço para arrendar áreas agrícolas caiu no segundo semestre de 2025, o que não aliviou o quadro para agricultores que arrendaram antes dessa queda. Em casos extremos, há produtores que têm optado por devolver a área e desistir da atividade.
O grupo GMS cultiva 32 mil hectares de soja, milho e algodão em Sorriso e Nova Mutum, no médio-norte de Mato Grosso. Segundo Moacir Smaniotto Júnior, diretor-executivo da companhia, o ganho econômico desaparece quando a conta inclui a despesa para cultivar terras de terceiros, mesmo em propriedades que têm bom rendimento no campo.
A GMS arrenda cerca de 40% de suas áreas produtivas. Para ele, a raiz do problema está na combinação entre grande oferta de soja, demanda que não acompanha o ritmo dessa oferta e aumentos constantes de custos.
“Se você paga arrendamento, vão sobrar 15 sacas de soja, e se tudo der certo. Isso é bem apertado”, diz.
Júnior acredita que a raiz do problema está na combinação entre oferta elevada de soja, demanda sem o mesmo ritmo e custos que continuam a subir. “Eu vejo que a demanda não está crescendo no mesmo nível da oferta. Então você tem que ser muito eficiente. O caminho vai ser a eficiência”, avalia.
Uma melhoria nas cotações dos grãos, por enquanto, é descartada pelo executivo. “Não acredito que preços subirão, a não ser que você tenha uma quebra de safra em algum local importante do mundo”, diz. E, em contrapartida, o aumento de custos já aparece no planejamento da próxima temporada.
“O que mais está me preocupando é que a gente já está começando a desenhar a safra 2026/27 e os custos estão subindo”, observa.
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Ele cita os fertilizantes como principal pressão. Além disso, destaca altas consistentes em mão de obra, mecanização e manutenção, itens que raramente recebem a mesma atenção do produtor que calcula insumos por hectare.
Segundo levantamento da S&P Global Commodity Insights, no Centro-Oeste, os preços dos arrendamentos de terras no segundo semestre de 2025 caíram 2,1% em relação ao mesmo intervalo do ano anterior. Nas áreas de grãos, a queda no país foi de 2,3%, para R$ 1.796 por hectare, em média, uma redução que não aparece nos custos dos arrendatários.
No Sul, os problemas climáticos dos últimos anos agravaram a situação. Em setembro de 2025, Carlos Wagner Messerlian La Bella devolveu ao proprietário os 400 hectares que arrendava para plantio de grãos e pecuária em Lavras do Sul (RS). Ele tomou a decisão após sofrer perdas com as intempéries por quatro anos consecutivos.
“Ficou totalmente inviável. O valor do arrendamento segue alto demais, o custo de produção aumentou sensivelmente, e tivemos quebras de safras que derrubaram qualquer perspectiva”, afirma.
Carlos Wagner Messerlian La Bella, produtor rural de Lavras do Sul (RS)
Clarisse de Freitas
La Bella arrendava terras para plantio há 15 anos. O último contrato havia sido renovado em 2024, deveria durar três anos, mas foi encerrado mais cedo.
“Eu tinha que pagar 11 sacos de soja por hectare pela terra, mas nossa média de produção nos últimos quatro anos foi só de 26 sacos por hectare. Colocando o custo de produção nessa conta, venho praticamente pagando para plantar”, relata.
O agricultor Carlos La Bella é um dos cerca de 65 mil produtores rurais do Rio Grande do Sul que acumulam mais de R$ 27 bilhões nas safras desde 2020, segundo cálculos da Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul). A situação prejudica especialmente os produtores arrendatários, que, além de arcar com os custos de produção, têm que gastar com o aluguel das terras.