Ao longo de 2025, foram anunciados mais de R$ 60 bilhões em investimentos em ampliações e em novos projetos agroindustriais e de infraestrutura no Brasil, de acordo com levantamento inédito feito pela reportagem do Valor, com base em dados de consultorias, entidades setoriais e anúncios à imprensa. Essa conta foi engrossada pela onda de novas usinas de etanol de milho.
Apenas no ano passado os investimentos em capacidade industrial de produção de etanol de milho divulgados somaram R$ 41 bilhões, conforme levantamento da consultoria FG/A feito a pedido do Valor.
Os recursos serão destinados a 44 projetos que, se confirmados, vão adicionar à capacidade de produção de etanol do Brasil 12 bilhões de litros ao ano. O principal anúncio foi feito no fim de 2025 pela Inpasa, envolvendo investimentos de R$ 3,5 bilhões em uma nova planta em Rondonópolis (MT) e a ampliação da unidade de Nova Mutum (MT).
O volume de investimentos anunciados para o etanol de milho só em 2025 supera o montante que o setor de etanol de cana-de-açúcar anunciou em novos projetos — R$ 30 bilhões — no período de 2009 a 2012, conforme levantamento do Valor feito em 2009.
Para Willian Hernandes, sócio da FG/A, a expansão do segmento de etanol de milho está relacionada às margens atrativas do negócio e às condições de financiamento também vantajosas.
Com a abundância de milho no país, o custo de produção de etanol a partir do grão mostrou-se mais competitivo que o do etanol de cana, o que tem permitido ao biocombustível feito do cereal alcançar novos mercados. “É uma oportunidade de operar um produto com valor agregado maior [que o do milho], e a infraestrutura está pronta”, observa Felippe Serigatti, professor da FGV Agro.
Para driblar os juros altos, muitos dos investimentos anunciados contaram com empréstimos do Fundo Clima do BNDES — cujas taxas estão na casa dos 8%. Foi o caso da ampliação da planta da São Martinho em Boa Vista (GO). E há empresas que têm feito investimentos apenas com a geração de caixa, o caso da Inpasa, líder em etanol de milho no Brasil.
Outro fator que contribuiu para o avanço dos projetos na área é a ampliação da mistura do etanol anidro na gasolina, viabilizada pela Lei Combustível do Futuro, que permite que o governo aumente esse teor até 35%, a depender de estudos técnicos.
Biodiesel
A cadeia de produção de biodiesel é outro segmento que também anunciou investimentos bilionários em 2025, ainda que em menor escala. As processadoras de soja têm investimentos previstos de pelo menos R$ 5,9 bilhões a serem executados até setembro de 2026, segundo levantamento da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove).
Os aportes referem-se a investimentos voltados ao esmagamento de soja e refino de óleo e representam um acréscimo de 2,4% sobre o ano móvel anterior.
Além da contagem da Abiove, destacou-se em 2025 anúncio de investimento de R$ 1 bilhão da Frísia Cooperativa Agroindustrial, de Carambeí (PR), na instalação de uma esmagadora de soja e de armazéns em Tocantins e no Paraná, além de expansões em seus outros negócios: leite, carne suína, sementes e florestal.
Daniel Furlan Amaral, diretor de economia e assuntos regulatórios da Abiove, diz que os investimentos das esmagadoras de soja atendem principalmente a demanda de óleo de soja no mercado interno para alimentação e produção de biocombustíveis.
“Não fosse o biodiesel, muito provavelmente teríamos uma capacidade de esmagamento menor no país. A produção do óleo tem sido a principal alavanca para o aumento da oferta do farelo, o que está barateando o custo das rações e estimulando o semiconfinamento e o confinamento da pecuária”, observa.
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Em menor escala, os frigoríficos anunciaram ao menos R$ 1,539 bilhão em investimentos no país no ano passado, e mais US$ 1,065 bilhão fora do Brasil, conforme levantou o Valor. A maior parte dos investimentos anunciados é destinada a expansões de linhas de produção nas unidades existentes para atender à crescente demanda por carne no mundo.
Os demais R$ 7,6 bilhões em investimentos contemplam outros segmentos do agronegócio, desde lácteos, café, fertilizantes, sementes, até fábricas de batatas. Somente a argentina GDM anunciou R$ 1 bilhão para um período de cinco anos, enquanto a Coamo anunciou um aporte de R$ 3 bilhões em um novo terminal portuário em Itapoá (SC), com previsão de início em 2030.
Para Serigatti, da FGV, ainda que a taxa básica de juros atual em 15% prejudique os investimentos, “quando olhamos o longo prazo, os fundamentos, faz todo o sentido [o agro] ser um dos setores que mais realiza investimentos”. “Dentro dos grandes setores, foi o que mais conseguiu se inserir nas cadeias globais de valor. Tem demanda tanto quando a economia do mercado interno está bem, como responde a movimentos favoráveis do setor externo”, acrescentou.
Na visão do Citi, há um aumento da demanda global por alimentos, e o Brasil se destaca como uma das poucas regiões com grande capacidade de expansão agrícola. Para o banco, os investimentos são impulsionados pela expansão da área de grãos, sobretudo pela conversão de pastagens, e o crescimento na produção de biocombustíveis.
Entretanto, a projeção do Citi para 2026 indica uma possível redução no nível de investimentos do setor. “Isso se deve ao cenário desafiador atual, marcado por alta alavancagem, taxa Selic elevada, escassez de crédito e margens apertadas para os produtores. Acreditamos que a prioridade da maioria das empresas será a resiliência e a redução do endividamento ao longo do próximo ano”, disseram Gabriel Barra e Renata Cabral, analistas do Citi.