
O avanço do acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia é uma conquista política relevante após mais de duas décadas de negociações. Ainda assim, é fundamental precisão conceitual.
O acordo ainda não foi assinado oficialmente. Houve uma aprovação política prévia que destrava o processo e mesmo após a assinatura pouco acontecerá de forma automática e ou intensa. A etapa seguinte será decisiva: implementação, negociação fina e posicionamento estratégico.
É exatamente nessa janela que o Brasil não pode errar. Mais do que celebrar o avanço, será vital conduzir um trabalho consistente e contínuo de abertura de mercados, com comunicação estruturada do agro brasileiro, missões internacionais e presença institucional permanente na Europa. O acordo abre portas. A forma como o Brasil atravessará essas portas é que definirá o resultado de décadas de negociação.
O receio dos produtores europeus de ver seus mercados pressionados por produtos do Mercosul, com impacto sobre preços e renda agrícola, sempre existiu e existirá. O que muda agora é que esse temor ganha densidade política, visibilidade institucional e resposta governamental concreta.
Manifestações recentes em diferentes países da Europa, em portos, rodovias e centros urbanos, mostram que o debate saiu do campo simbólico. Agricultores passaram a pressionar diretamente seus governos por respostas estruturais, indo além da oposição formal ao acordo.
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A resposta do governo francês é ilustrativa desse movimento. O anúncio de um pacote emergencial para o setor agrícola reconhece que a soberania alimentar é responsabilidade nacional e que o excesso de normas ambientais e produtivas tornou se contraproducente.
Medidas como a proposta de uma lei de emergência agrícola, a suspensão de decisões sobre política da água, a flexibilização de regras ambientais e o reforço financeiro ao setor deixam claro que o problema europeu não nasce no Mercosul. Ele é estrutural. Baixa renda agrícola, custos elevados, excesso regulatório e perda de competitividade já estavam presentes. O acordo funciona como catalisador de um desconforto pré-existente.
Para o produtor europeu, o acordo passou a concentrar diferentes pressões em um único ponto. Ele simboliza a entrada potencial de produtos mais competitivos, vindos de regiões com escala, clima favorável e até com custos menores. Em um ambiente de margens comprimidas, qualquer sinal de aumento de oferta é percebido como ameaça direta.
Do ponto de vista técnico, o tratado não prevê liberalização irrestrita. Há cotas, volumes crescentes, tarifas intracota e mecanismos de salvaguarda. Ainda assim, a percepção pesa tanto quanto a regra. No momento, é a percepção que domina o debate político europeu.
A União Europeia já é o segundo maior destino do agronegócio brasileiro, respondendo por cerca de 15% das exportações do setor. O acordo não cria esse mercado. Ele melhora condições tarifárias e amplia previsibilidade.
O Brasil cumpre exigências sanitárias rigorosas. O desafio não é produtivo. É político, comunicacional e estratégico, e minhas frequentes temporadas e meu convívio familiar na Europa me dão um lugar de fala claro. Há desconhecimento sobre como o agro brasileiro realmente produz. E quando o diálogo é técnico e transparente, a resistência tende a diminuir. Quando o diálogo inexiste, o espaço é ocupado por narrativas simplificadas e claro, pelo medo.
A Europa é vanguarda em um movimento de valorizar sustentabilidade, rastreabilidade, governança e responsabilidade ambiental. Trata se de um movimento de longo prazo, que influenciará cada vez mais mercados.
O agro brasileiro possui atributos concretos. Preservamos grande parte do território nacional com vegetação nativa, operamos sob um dos códigos florestais mais rigorosos do mundo, refinamos constantemente boas práticas e avançamos em sistemas produtivos de baixo carbono. Nada disso, porém, se converte automaticamente em vantagem competitiva se não for bem embalado, trabalhado., afinal sustentabilidade que não é comunicada não diferencia.
O acordo negociado em bloco cria oportunidades que serão disputadas internamente entre Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai e cada país leva atributos distintos à mesa. O Brasil reúne escala, diversidade de cadeias e capacidade de entrega tornando-o uma liderança natural no bloco. Liderança esta que precisa ser reforçada pela construção diária da conquista de novos mercados.
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Diante da institucionalização dos protestos europeus, fica ainda mais evidente que o Brasil precisará de presença permanente, diálogo técnico e comunicação estratégica contínua. Missões bem estruturadas são parte central dessa estratégia, não como eventos isolados, mas como instrumentos permanentes de construção de confiança.
Missões internacionais, agendas institucionais e conversas com reguladores, parlamentares, compradores e formadores de opinião não podem ser episódicas. Precisam ser tratadas como política de mercado. É preciso encantar a Europa com nossas práticas, construir alianças e ocupar espaço de confiança. É preciso ter a Europa como aliado. Quem entra no mercado Europa e se estabelece está passos à frente de abrir novos outros mercados.
O continente comprará de mais harmonicamente com o país e marca que se identificar e que espelharem e respeitarem suas culturas, suas histórias e alimentarem seus legados.
O acordo Mercosul União Europeia avança, mas ainda não foi assinado oficialmente. As manifestações mostram que a resistência europeia não é pontual nem passageira. Ela é ampla e reflete uma crise estrutural do campo europeu, que encontrou no acordo um símbolo.
Nesse contexto, o Brasil precisa agir com maturidade estratégica. Implementar, comunicar e se posicionar será tão importante quanto produzir.
O tratado cria o ambiente. O protagonismo dependerá da capacidade do Brasil de mostrar que não é uma ameaça, mas parceiro confiável, sustentável, consistente e previsível.
No agro contemporâneo, mercado não recompensa silêncio. Recompensa presença, método, credibilidade e valores construídos no tempo. E vale lembrar que dinheiro não aceita desaforo, e é exatamente nisso que a origem produtora europeia irá insistir e repercutir junto aos centros urbanos.
*Andrea Cordeiro é especialista em commodities agro, mitigação de riscos e estratégia de mercado
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