A startup brasileira Scienco Biotech desenvolveu e patenteou uma tecnologia capaz de identificar o tipo de leite que é livre de uma proteína associada à má digestão. Trata-se de um teste realizado logo após a ordenha do animal, semelhante ao de gravidez.
O teste rápido da Scienco pode ser feito pelo próprio pecuarista, com um pingo de uma amostra de leite, e o resultado sai na hora, segundo a veterinária Maria de Lourdes Magalhães, criadora do teste e CEO da startup. Ela observa que, no modo convencional, esse processo é feito por meio da análise do DNA dos animais, com testes laboratoriais “caros e demorados”.
As vacas podem produzir leite com a proteína A1, relacionada à má digestão, ou a proteína A2, que não está associada ao problema e é a mesma encontrada no leite materno. O leite A2 provém de vacas com o gene A2A2 e não promove a formação da beta-casomorfina-7 (BCM-7), associada a possíveis desconfortos digestivos e presente no leite A1, explica Diana Jank, diretora de marketing da Letti.
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A Letti pertence ao grupo Agrindus, um dos maiores produtores de leite do Brasil, e fabrica produtos lácteos apenas com a proteína A2, utilizando outra tecnologia para identificação.
Gustavo Silva, diretor de inovação da Scienco Biotech, vê potencial para “revolucionar” a cadeia de leite no Brasil com os testes rápidos. “São simples e de baixo custo. Podemos acelerar a tomada de decisão dos pecuaristas”, afirma.
Atualmente, cerca de 1.900 fazendas no Brasil, Colômbia e Coreia do Sul, já utilizam o teste da Scienco. Agora, a empresa começou a vender o teste no mercado da Nova Zelândia, país onde o leite A2 foi identificado pela primeira vez na década de 1990, e onde esse leite começou a ser comercializado em 2003.
Segundo Maria de Lourdes Magalhães, a chegada à Nova Zelândia é um divisor de águas porque, além de pioneiro, o país exporta para a China, que tem alta demanda pelo leite A2, e onde é utilizado na fabricação de fórmulas infantis.
No Brasil, a maior parte dos pecuaristas não costuma identificar o tipo de leite e acaba misturando a produção do rebanho e comercializando tudo como leite A1, que pode causar o desconforto digestivo. “Com a identificação, o produtor pode separar o leite das vacas A2 e vendê-lo de forma diferenciada”, diz ela.
Os pecuaristas que fazem a segregação recorrem a testes de laboratório. No início de 2025, a Scienco recebeu um investimento de R$ 1,8 milhão da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) para desenvolver um novo teste que identifica leites com maior rendimento para produzir queijos. Magalhães afirma que a tecnologia já está em operação em cerca de 20 fazendas.
“O teste identifica de forma instantânea as vacas que produzem um leite com melhor capacidade de coagulação na produção de queijo, que resulta em um rendimento até 30% maior, com menos perdas e maior padronização na fabricação de queijos”, explica a CEO da Scienco.
Para 2026, o objetivo é lançar uma terceira tecnologia que identifica resquícios de antibiótico no leite. A projeção da Scienco é alcançar cerca de R$ 2 milhões de faturamento com a consolidação das tecnologias.