
O esporte tem sido um importante instrumento de inclusão social para pessoas com deficiência (PcD), especialmente quando aliado a políticas públicas que garantem acesso, incentivo e estrutura adequada. Um exemplo disso é a trajetória do paratleta Henrique Gurgel, nadador paralímpico que há 15 anos mantém uma rotina intensa de treinos, duas vezes por semana, na piscina do Sesi Parangaba. Paraplégico após ser vítima da violência urbana, ele reencontrou na natação — modalidade com a qual teve contato ainda durante a adolescência, no processo de reabilitação — um novo propósito de vida e superação.
Especialista no nado 150 metros medley, Henrique soma pelo menos 300 medalhas ao longo da carreira. As mais recentes vieram do Open de Natação na Colômbia, onde conquistou dois ouros, quatro pratas e um bronze. Apesar da trajetória vitoriosa, o início foi marcado por desafios físicos. “A paraplegia a gente fica, digamos assim, com a respiração diferente. Muitas vezes a pressão arterial cai. A parte respiratória, essa foi a principal barreira a princípio”, relata o atleta. Questionado sobre como superou essas dificuldades, ele explica: “Bom, tentando treinar com o dia a dia, adquirindo mais condicionamento físico e principalmente me testando no meio do esporte”.
Com o passar do tempo e a conquista dos primeiros pódios, também começaram a surgir apoios importantes para a continuidade da carreira. “Algumas empresas que eu procurei, que eu precisei de algum apoio, eu fiz um projeto e encaminhei para os donos e com o tempo eu fui tendo alguns apoios”, conta Henrique. Para ele e para especialistas, o esporte é uma das principais portas de entrada para a inclusão das pessoas com deficiência na sociedade, desde que existam políticas públicas eficazes que assegurem o acesso universal às modalidades esportivas.
Iniciativas
Entre as iniciativas existentes estão programas federais de inclusão esportiva, como o Maré Inclusiva, voltado para modalidades como o para-surf e atividades adaptadas nas praias brasileiras, e o Semear para o Desporto, que democratiza o acesso ao esporte adaptado por meio de núcleos destinados a crianças, jovens, adultos e idosos. Há ainda acordos de cooperação entre os Ministérios do Esporte e da Saúde, que envolvem a inserção do paradesporto em centros especializados de reabilitação e a troca de conhecimento entre os órgãos, além de financiamentos por meio da Secretaria Nacional do Paradesporto e compromissos internacionais firmados com a Organização das Nações Unidas (ONU).
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Segundo a advogada Fabiana Farah, especialista em direitos das pessoas com deficiência, o incentivo ao paradesporto tem ganhado mais atenção nos últimos anos. “O Ministério da Saúde tem se preocupado com essas pessoas, esses para-atletas, desde a última paraolimpíada, que eles se destacaram bastante, então o incentivo tem sido uma das preocupações para que outros atletas que não tiveram oportunidade de investimento ou de condição mesmo de um treinamento mais rigoroso, mais específico, terem essa chance”, afirma. No entanto, ela alerta que ainda existem falhas importantes na efetivação dessas políticas.
“Apesar das leis, falta fiscalização para que elas sejam efetivamente cumpridas. A fiscalização, o incentivo das pessoas mesmo em divulgar, em trazer as empresas para participar de fato desses patrocínios, seria de extrema importância para que acontecesse mesmo essa inclusão dos atletas paralímpicos nessas modalidades”, ressalta Fabiana. Para a advogada, o esporte vai além dos benefícios físicos, sendo também uma poderosa ferramenta de combate à exclusão social e ao preconceito.
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Ela reforça que a igualdade de direitos nem sempre significa tratamento igual. “É de extrema importância que todas as pessoas sem distinção tenham a chance de usufruir da vida em sociedade de maneira igualitária. E para isso a gente muitas vezes tem que tratar os desiguais de forma desigual”, explica, destacando que as pessoas com deficiência enfrentam condições específicas que precisam ser consideradas. Fabiana também aponta que, muitas vezes, a maior barreira não está na deficiência em si, mas no entorno social. “A principal barreira às vezes são os pais que super protegem os filhos. Eu entendo que tem muitas condições que os pais querem proteger, mas a principal barreira realmente são os pais ou o meio social que eles vivem, deixar ele mesmo ter as escolhas dele”.
Segundo ela, permitir que a pessoa com deficiência faça suas próprias escolhas é essencial para o desenvolvimento da autonomia. “Através dele, tomando as decisões, ele vai ter o apoio das pessoas para poder ele conseguir seguir a frente”, conclui. A história de Henrique Gurgel ilustra como o esporte, aliado a políticas públicas eficazes e apoio social, pode transformar vidas e promover uma inclusão real e duradoura.
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