Uma “horta automatizada”, criada por estudantes e professores do Centro de Pesquisas do Instituto Mauá de Tecnologia (IMT), pretende ser uma nova ferramenta para pequenas propriedades rurais. O projeto usa uma estação meteorológica para medir índices de chuva, umidade, temperatura, velocidade e direção do vento e conta com um sensor de umidade do solo e sistema de irrigação automática.
A ideia é atender propriedades menores que têm mais barreiras para aplicar tecnologias no dia a dia dentro da porteira, segundo Wânderson Assis, professor e coordenador da pós-graduação em Engenharia de Automação e Controle Industrial do IMT. “Queremos criar soluções de baixo custo para os produtores. E quanto menor for a fazenda, menor o custo”, afirma.
Segundo ele, tudo se integra via IoT (Internet das Coisas), tecnologia que permite que dispositivos físicos coletem e troquem dados pela internet. As informações são transmitidas para uma central de controle no campus da Mauá.
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A partir dos resultados obtidos com a horta automatizada instalada no campus do instituto, a equipe apresentou o projeto à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), levantou recursos e alçou voos maiores.
O projeto contemplou recursos destinados a diferentes áreas, como infraestrutura e custos operacionais, mas as ações realizadas pela Mauá corresponderam a um investimento de R$ 30 mil. Além disso, a Fapesp concedeu duas bolsas de iniciação científica para estudantes.
O sistema foi replicado no Centro de Inovação e Tecnologia (CIT) da Associação Brasileira de Automação (GS1 Brasil), e em duas fazendas da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), em Passo Fundo (RS) e São Miguel Arcanjo (SP).
Na implementação do projeto nas fazendas, a Mauá teve a parceria da Embrapa Agricultura Digital, com participação das unidades Embrapa Trigo e Embrapa Florestas, além de pesquisadores do Instituto Federal do Rio Grande do Sul (IFRS).
Em julho de 2025, instalado em uma fazenda também em São Miguel Arcanjo, o sistema registrou geada e ventos fortes que resultaram na inclinação da plantação de trigo na propriedade. Isso, segundo o pesquisador, permitiu que o dono da plantação compreendesse o evento climático ocorrido.
“Começamos na horta para que os alunos vivessem a automação no campo. A ideia é aprender fazendo, e transformar essa base em soluções reprodutíveis fora do ambiente acadêmico”, afirma Assis.
Segundo ele, a meta é levar a tecnologia em larga escala para o campo porque os dados viram decisão nas fazendas. “Quando regar, quando proteger a lavoura, como reagir a fenômenos climáticos. O caso da geada mostrou como a evidência orienta a resposta do produtor”, diz.
Hoje, as medições obtidas pelos sensores já são usadas para a tomada de decisões e para ajudar em outros tipos de processos, como identificar se a planta está crescendo mais ou menos do que o ideal.
A fase atual, de coleta e filtragem de dados nas fazendas, antecipa o próximo passo: uso de inteligência artificial para definir o momento adequado de irrigação. “Será importante para economizar recursos e tomar decisões melhores”, resume Assis.
Além disso, há uma evolução em andamento: o uso de processamento de imagem para identificar pulgões no trigo e acompanhar o crescimento da planta. O objetivo é atacar pragas com mais precisão e minimizar o uso de defensivos. Apesar de ter sido elaborada e testada com trigo, Assis afirma que a tecnologia funciona para qualquer cultura.