No relatório divulgado em dezembro, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) apresentou estimativas robustas para a safra brasileira, projetando a produção de soja em 177,1 milhões de toneladas e a de milho em 138,9 milhões de toneladas.
Ambos os números estão amplamente alinhados com as projeções da STAG International e situam-se acima das estimativas mais conservadoras divulgadas pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) em seu mais recente relatório de oferta e demanda global (WASDE).
O USDA projeta uma produção de 175 milhões de toneladas para a soja e de 131 milhões de toneladas para o milho no Brasil. Independentemente da fonte das estimativas, os números apontam para um aumento da produção nacional de soja entre 3 e 6 milhões de toneladas em termos anuais, enquanto a produção de milho tende a recuar entre 3 e 5 milhões de toneladas.
Essa retração ocorre após a segunda safra de milho ter registrado níveis recordes de produtividade em alguns estados em 2025, o que eleva a base de comparação e limita o potencial de crescimento adicional.
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A colheita da soja deve ter início dentro de aproximadamente um mês na região Centro-Oeste, com destaque para o Mato Grosso, especialmente nas áreas irrigadas por pivô central. As chuvas observadas desde o final de novembro têm sido, de modo geral, favoráveis ao desenvolvimento das lavouras.
Além disso, os modelos meteorológicos indicam, no momento, baixo risco climático para a safra brasileira de soja, um cenário que já se encontra amplamente precificado tanto nos contratos futuros quanto nos prêmios de exportação. Caso o clima fique seco a partir da terceira semana de janeiro na Argentina e nos estados produtos do Sul do Brasil, poderia então começar uma reprecificação, a depender da intensidade de um eventual impacto negativo.
Na ausência de choques adversos no regime de chuvas ao longo de janeiro, a tendência é de consolidação de um crescimento anual da produção de soja. Ainda assim, apesar da expansão da safra de soja e de uma leve contração na produção de milho, o impacto sobre o Produto Interno Bruto (PIB) não deverá replicar o desempenho observado em 2025, quando o PIB agropecuário apresentou crescimento expressivo.
Como observa o economista Francisco Pessoa, pesquisador associado da Fundação Getúlio Vargas – IBRE, o crescimento de ambas as culturas foi expressivo nesse ano, e com avanços do rendimento médio — o que potencializa os números. Além disso, a contribuição positiva dada pelo abate de bovinos deverá ser revertida, em função da fase do ciclo pecuário.

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No que tange aos preços agrícolas e em seus efeitos sobre a inflação em 2026, primeiramente é importante ressaltar o que os valores negociados em Chicago precificam atualmente, e se há espaço para queda ou alta, assim como para os prêmios de porto.
Os atuais contratos de soja incorporam a China adquirindo 12 milhões de toneladas dos Estados Unidos (conforme reunião realizada entre os presidentes Donald Trump e Xi Jinping ao final de outubro) e 32.5 milhões de toneladas de outros países, resultando em estoques ao final da safra 2025/26 de 7.9 milhões de toneladas nos Estados Unidos.
Porém, de acordo com as estimativas da STAG, o governo chinês até o momento comprou entre 6,5 e 7,5 milhões de toneladas de soja americana, restando ainda de 5,5 a 4,5 milhões de toneladas para a meta de 12 milhões de toneladas, enquanto os outros destinos já negociaram entre 18 e 19 milhões de toneladas até a última semana de novembro.
O que os futuros em Chicago não estão precificando atualmente é se todos os destinos, à exceção da China, conseguirão adquirir 32,5 milhões de toneladas dos Estados Unidos, ou 4 a 5 milhões de toneladas superior ao ano safra 2024/25, porém, com uma forte safra brasileira para ser colhida a partir de meados de janeiro.
Assim, há espaço para maiores quedas dos preços futuros, enquanto os prêmios devem permanecer relativamente estáveis ou subir à medida que a soja em Chicago se desvaloriza.
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O mesmo vale para o preço futuro do milho, pois o USDA está assumindo premissas muito otimistas para o lado da demanda doméstica dos EUA, assim como para as exportações, dado que a Argentina pode colher uma boa produção de milho e passar a competir com os americanos.
Pela ótica das perspectivas globais de oferta e demanda, as commodities agrícolas seriam um vetor de desinflação, porém, um “mas” é necessário. Isto é, enquanto os preços de grãos podem ter desvalorização ao longo de 2026, no entanto, o preço da carne bovina, no cenário mais provável, deverá apresentar elevação graças à influência do ciclo pecuário citada acima.
A pressão oriunda dos preços de carne bovina, por sua vez, proporciona espaço para que as cotações da carne de frango e ave não caiam o quanto seria esperado se levado em consideração apenas o alívio no custo de produção proporcionado pela evolução do milho e da soja, os principais insumos para a produção de rações. Isto é, a função dos mercados seria a de elevar as margens dos frigoríficos, de modo a incentivar a elevação da oferta futura.
Portanto, as boas safras projetadas para a soja e o milho não terão grande contribuição para uma alta do Produtor Interno Bruto em 2026, e também devem apresentar baixo impacto sobre a trajetória de inflação de ano que vem.
*Chau Kuo Hue é diretor de Inteligência de Mercados da STAG International e Francisco Pessoa é pesquisador associado da Fundação Getulio Vargas – IBRE
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