
O doce “morango do amor”, febre nas redes sociais, impacta também a vida no campo. Com o aumento da procura pelo confeito, que se tornou a sensação do momento, produtores e consumidores estão assistindo à uma forte alta nos preços da fruta.
Na Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (Ceagesp), por exemplo, considerada a maior empresa pública de alimentos da América do Sul, o acréscimo chegou a 100%, conforme levantamento da equipe da Seção de Economia e Desenvolvimento (Sedes) a pedido da Globo Rural.
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Na cotação realizada em 2 de julho, o quilo do morango era comercializado a R$ 24,66 e ainda não sentia o impacto da internet. No entanto, 23 dias depois, nesta sexta-feira (25/7), o valor subiu para R$ 48,07 (confira a evolução na tabela abaixo).
A maior quantidade de morango comercializada na Ceagesp tem como origem Minas Gerais, Estado destaque na produção nacional. Apenas neste ano, 189,2 mil toneladas foram colhidas, de acordo com a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural de Minas Gerais (Emater-MG), em uma área de 3,7 mil hectares. O número já supera a safra passada, com 173 mil toneladas.
A produção no campo
Maurício Preterotto, produtor há 35 anos em Jundiaí (SP), viu a procura pelo fruto do tamanho extra-grande, aquele utilizado na fabricação do doce, também aumentar 100%. E para atender todos os clientes da cidade, como casa de frutas, confeitarias, empresas de sucos e o consumidor final, resolveu alterar a forma como comercializa o produto.
“A venda dos morangos grandes antes era feita como fondue, ou seja, embalado em bandejas bem selecionadas. Com essa febre do ‘morango do amor’, o valor subiu, e agora eu vendo por unidade. Mudou o tipo de venda”, conta. No novo modelo, o agricultor, que comercializava duas bandejas a R$ 40, passou a vender cada unidade a R$ 2.
Com cerca de 12 mil plantas na propriedade, Preterotto produz, aproximadamente, 600 quilos de morango por mês. Já dos morangos maiores, colhe em torno de 60 quilos. “A procura pelas confeitarias aumentou um pouco. A demanda cresceu mesmo foi pelas pessoas que fazem doces em casa”, diz.
O mesmo cenário é observado na propriedade de Rafael Augusto Maziero, em Atibaia (SP). Seguindo a tradição da família, que começou o cultivo na década de 1970, ele planta três variedades – Fênix, Crystal e San Andreas – e colhe em torno de 1 mil a 1,2 quilos por mês.
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Em entrevista à Globo Rural, o agricultor explica que percebeu o aumento de 15% na demanda em razão da febre ocasionada pelo doce nas redes sociais. O número poderia ser maior, mas esbarra em uma questão: o tamanho.
“Sempre houve uma busca especial por frutos maiores. Porém, com essa sensação do ‘morango do amor’, aqueceu novamente esse mercado. Há uma certa dificuldade em atender pelo padrão, porque a procura é pelo morango extra-grande”.
De acordo com Maziero, a caixa com quatro bandejas de morangos tipo grande, subiu 50% em duas semanas, saindo de R$ 30, em meados de julho, para R$ 45 nesta semana. No caso dos morangos selecionados e no padrão fondue”, ideais para a fabricação do “morango do amor”, a caixa com, aproximadamente, 1,2 quilo, é comercializada a R$ 60.
Produtor vê preço do morango subir graças à trend do Tiktok
Admir Bento da Silva
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Em Minas Gerais, que tem a maior produção do Brasil, Admir Bento da Silva cultiva 1 milhão de pés suspensos da variedade San Andreas, conhecida pelo sabor doce e aroma agradável, em Bom Repouso.
O agricultor direciona toda a produção para o Centro de Distribuição de Morango (Ceasinha) e também vem recebendo muitos pedidos à parte por causa da receita que viralizou na internet.
“Eu vendo diretamente no Ceasa, e lá as pessoas compram para consumo e também para revender em outros Estados, inclusive. O morango vai longe. Eles distribuem para outros locais. As pessoas me ligam, mas já tenho compromissos no Ceasa e envio tudo para lá”.
A produção de morango na propriedade rural varia conforme o mês e o clima, explica. No entanto, é estimada em 50 mil a 80 mil caixas. Cada unidade pesa em torno de 1,6 quilo e é vendida atualmente por R$ 50. Antes da febre, custava de R$ 28 a R$ 30.
“Como esse morango ainda é revendido, acredito que o preço está chegando bem mais alto ao consumidor final”, diz ele.
Produtor de morango há mais de 20 anos, Admir revela que está acostumado com a procura em datas especiais, como Dia das Mães e Natal. No entanto, a demanda sem uma data comemorativa o surpreendeu em 2025. “É a primeira vez que isso acontece comigo. Sempre tem em momentos específicos e que já esperamos, mas agora foi diferente”.
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Escoamento da safra
Na avaliação de Oswaldo Maziero, presidente da Associação dos Produtores de Morangos e Hortifruti de Atibaia, cidade conhecida como a “capital do morango”, embora os preços estejam em patamares acima das médias históricas para o período, cederam um pouco desde junho, quando a safra de Atibaia e região começou a entrar no mercado.
“Em junho, a caixa era negociada a R$ 40, mas foi caindo com o escoamento da produção até chegar em R$ 20. Há duas semanas, os preços voltaram a subir”, conta. Na região de Atibaia, que compreende ainda os municípios de Jarinu, Piedade e Itapeva, cerca de 200 produtores cultivam morango.
A safra deste ano, que vai de junho a novembro, promete ser boa. “Nossa expectativa é de que a produção fique próxima de 1 quilo por planta”, estima Oswaldo. Segundo ele, para ser rentável, cada planta deve render entre 800 gramas e 1 quilo.
O clima, com baixas temperaturas registradas, tem ajudado, porque o morango gosta do frio. Uma geada registrada entre os dias 24 e 25 de junho queimou as plantas mais desenvolvidas, mas não prejudicou o desempenho da safra, conta. “A geada igualou as floradas”.
Atualmente, são cultivados 1,5 milhão de pés de morango no solo, sendo 60 mil plantas por hectare. Há também o cultivo em sistema suspenso, que vem recebendo uma adesão cada vez maior dos produtores pela possibilidade de cultivar 4,3 mil plantas em 600 metros quadrados. “As vantagens deste sistema é que a cultura é protegida de intempéries climáticas”.
Até o momento, cerca de 30% da safra da região foi colhida. “Sabemos que a tendência é de queda na produção, conforme a colheita avança, mas estamos com a expectativa de que essa moda do ‘morango do amor’ persista por mais uns meses e possa manter o preço da fruta em patamares mais altos este ano”, finaliza o presidente da associação.





